sexta-feira, 12 de setembro de 2008
Jorge Rodriguez Gerada
Olhe lá
Abra os olhos para a arte urbana (e engajada) que está nas ruas das cidades
por Marcia Bindo
"O protagonista é o bairro e seus habitantes. O artista escolhe um lugar, alguém da vizinhança, tira uma foto e, com a ajuda de um suporte, desenha a carvão no muro o retrato em grande escala. Em algumas horas, um anônimo qualquer ganha proporções de ídolo ou herói. Essa é a intenção do cubano-americano Jorge Rodriguez-Gerada: reforçar a identidade de um lugar transformando pessoas comuns em celebridades, buscando um diálogo entre os habitantes e o local onde vivem.
Hoje, em grandes centros urbanos do mundo, artistas plásticos realizam, assim como Jorge, murais, esculturas, grafi tes e intervenções com o objetivo de sensibilizar o espaço urbano, mostrando que a cidade é um organismo vivo e que a arte tem de estar ao alcance de todos. É dessa mistura de arte com ativismo que surgiu o conceito artivismo. Para mostrar, de maneira escancarada, que a cidade é das pessoas, afinal.
Foi de tanto olhar para o poluído rio Pinheiros da janela do seu apartamento que o artista paulistano Eduardo Srur teve um lampejo. Em outubro do ano passado, Srur espalhou num trecho do rio 100 caiaques coloridos ocupados por manequins de plástico. O rio se transformou num grande esgoto a céu aberto, mas há 70 anos as pessoas nadavam, praticavam esportes e desfrutavam dele, diz. Para ele, a arte tem de alterar a realidade cotidiana adormecida. Queria que os paulistanos voltassem o olhar para o rio morto, quase invisível, e para os problemas ambientais. Seus caiaques encalharam em montes de lixo e garrafas plásticas acumulados no rio, imagem que inspirou sua próxima ação: colocar 25 garrafas PET gigantes pelas margens do Tietê, que depois serão transformadas em casacos de náilon e doadas para comunidades carentes da região.
Arte político-poética Em essência, o artivismo responde à necessidade dos criadores de se manifestar em espaço público por alguma causa. No exemplo de Srur, para concretizar sua idéia foi necessário falar com a prefeitura, pedir autorização e usar a lei de incentivo para conseguir patrocínio e tornar viável sua intervenção. Mas a arte urbana normalmente não acontece assim. Intervenções usam a cidade como suporte, com ou sem autorização prévia. Muita gente acha que é vandalismo, invasão de propriedade, uma maneira de sujar a cidade, diz Aguinaldo Farias, curador e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Eu acho que os artistas têm mais é que usar o espaço público, mas com uma desobediência que faça sentido. E o que seria isso? Segundo ele, a obra precisa ter pertinência e relevância, não ser meramente decorativa ou uma autopropaganda.
Impacto visual Quando o túnel subterrâneo que passa sob a avenida Cidade Jardim, em São Paulo, foi inaugurado, seu interior era todo amarelinho. Em poucos dias, as chapas de ferro das laterais do túnel foram escurecendo até ficarem um negrume só. Estranhando a cor, o artista Alexandre Órion decidiu ver o que era, passou o dedo e pronto: saiu uma camada densa de fuligem. Ficou horrorizado. Queria limpar aquela sujeira, mas não sabia como, conta. O incômodo ficou em sua cabeça. Ele enxergou o túnel como uma catacumba urbana e que, se ele escavasse a fuligem, iria achar ossadas. Por 13 madrugadas, em julho do ano passado, Órion ia até o túnel Max Fefer e, com um pedaço de pano úmido, ia limpando a fuligem ao mesmo tempo que desenhava caveiras, uma intervenção que chamou de Ossário. A polícia vinha reclamar, mas não tinha argumento. Eu não estava pichando, estava limpando o túnel, diz.
Há mais de dez anos Órion usa as paredes abandonadas das cidades para questionar o que é feito com o lugar em que vivemos. Também usa a fuligem coletada dos panos encardidos como pigmento para pintar suas telas. Uma maneira de levar um pouco das ruas também para as galerias. A arte de rua por si só é uma desestruturadora social, leva a sociedade a repensar o espaço e a vida na cidade, diz Eduardo Brandão, professor de arte da FAAP e galerista da Galeria Vermelho, em São Paulo. Cada vez mais as galerias estão buscando os artistas de rua para expor em seus espaços, e artistas de galeria estão achando interessante fazer trabalhos nas ruas, diz ele. O que reflete um interesse maior por uma arte que cria diálogo com a cidade e com todos os que participam dela.
"O protagonista é o bairro e seus habitantes. O artista escolhe um lugar, alguém da vizinhança, tira uma foto e, com a ajuda de um suporte, desenha a carvão no muro o retrato em grande escala. Em algumas horas, um anônimo qualquer ganha proporções de ídolo ou herói. Essa é a intenção do cubano-americano Jorge Rodriguez-Gerada: reforçar a identidade de um lugar transformando pessoas comuns em celebridades, buscando um diálogo entre os habitantes e o local onde vivem.
Hoje, em grandes centros urbanos do mundo, artistas plásticos realizam, assim como Jorge, murais, esculturas, grafi tes e intervenções com o objetivo de sensibilizar o espaço urbano, mostrando que a cidade é um organismo vivo e que a arte tem de estar ao alcance de todos. É dessa mistura de arte com ativismo que surgiu o conceito artivismo. Para mostrar, de maneira escancarada, que a cidade é das pessoas, afinal.
Foi de tanto olhar para o poluído rio Pinheiros da janela do seu apartamento que o artista paulistano Eduardo Srur teve um lampejo. Em outubro do ano passado, Srur espalhou num trecho do rio 100 caiaques coloridos ocupados por manequins de plástico. O rio se transformou num grande esgoto a céu aberto, mas há 70 anos as pessoas nadavam, praticavam esportes e desfrutavam dele, diz. Para ele, a arte tem de alterar a realidade cotidiana adormecida. Queria que os paulistanos voltassem o olhar para o rio morto, quase invisível, e para os problemas ambientais. Seus caiaques encalharam em montes de lixo e garrafas plásticas acumulados no rio, imagem que inspirou sua próxima ação: colocar 25 garrafas PET gigantes pelas margens do Tietê, que depois serão transformadas em casacos de náilon e doadas para comunidades carentes da região.
Em essência, o artivismo responde à necessidade dos criadores de se manifestar em espaço público por alguma causa. No exemplo de Srur, para concretizar sua idéia foi necessário falar com a prefeitura, pedir autorização e usar a lei de incentivo para conseguir patrocínio e tornar viável sua intervenção. Mas a arte urbana normalmente não acontece assim. Intervenções usam a cidade como suporte, com ou sem autorização prévia. Muita gente acha que é vandalismo, invasão de propriedade, uma maneira de sujar a cidade, diz Aguinaldo Farias, curador e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Eu acho que os artistas têm mais é que usar o espaço público, mas com uma desobediência que faça sentido. E o que seria isso? Segundo ele, a obra precisa ter pertinência e relevância, não ser meramente decorativa ou uma autopropaganda.
Quando o túnel subterrâneo que passa sob a avenida Cidade Jardim, em São Paulo, foi inaugurado, seu interior era todo amarelinho. Em poucos dias, as chapas de ferro das laterais do túnel foram escurecendo até ficarem um negrume só. Estranhando a cor, o artista Alexandre Órion decidiu ver o que era, passou o dedo e pronto: saiu uma camada densa de fuligem. Ficou horrorizado. Queria limpar aquela sujeira, mas não sabia como, conta. O incômodo ficou em sua cabeça. Ele enxergou o túnel como uma catacumba urbana e que, se ele escavasse a fuligem, iria achar ossadas. Por 13 madrugadas, em julho do ano passado, Órion ia até o túnel Max Fefer e, com um pedaço de pano úmido, ia limpando a fuligem ao mesmo tempo que desenhava caveiras, uma intervenção que chamou de Ossário. A polícia vinha reclamar, mas não tinha argumento. Eu não estava pichando, estava limpando o túnel, diz.
Há mais de dez anos Órion usa as paredes abandonadas das cidades para questionar o que é feito com o lugar em que vivemos. Também usa a fuligem coletada dos panos encardidos como pigmento para pintar suas telas. Uma maneira de levar um pouco das ruas também para as galerias. A arte de rua por si só é uma desestruturadora social, leva a sociedade a repensar o espaço e a vida na cidade, diz Eduardo Brandão, professor de arte da FAAP e galerista da Galeria Vermelho, em São Paulo. Cada vez mais as galerias estão buscando os artistas de rua para expor em seus espaços, e artistas de galeria estão achando interessante fazer trabalhos nas ruas, diz ele. O que reflete um interesse maior por uma arte que cria diálogo com a cidade e com todos os que participam dela.
Conquista do espaço A arte urbana depende do espaço público e traz um novo conceito de arte, chamado Site Specific as obras são pensadas para acontecer em determinado ponto, e só funcionam nesse local como as intervenções no rio Pinheiros e no túnel. Outra característica é que o artista costuma preferir o anonimato ao estrelismo. Tanto é que há novas gerações de coletivos de arte, grupos de pessoas que se juntam para fazer trabalhos em conjunto, com mais ênfase na colaboração criativa que no ego.
Como o grupo de artistas plásticos mineiros Poro o nome faz alusão à arte que troca informações com o meio externo. O coletivo faz ações como a da madrugada de 2003, quando se apropriou de canteiros abandonados de uma grande avenida de Belo Horizonte e ali plantou flores de papel. Outro exemplo é o coletivo Object Orange, formado por artistas de Detroit que pintaram prédios abandonados de laranja fosforescente para estimular a prefeitura da cidade a olhar para o problema e tomar atitudes, como demolir e recuperar a área. Ou ainda o caso do coletivo Bijari, em que artistas paulistanos discutem questões ligadas ao espaço público e, em seus trabalhos, criticam o urbanismo excludente. Em uma de suas intervenções em São Paulo, registrada em vídeo, eles soltaram uma galinha no largo da Batata, reduto de cultura popular e ponto de camelôs, e depois colocaram o bicho em frente ao Shopping Iguatemi, lugar freqüentado pela elite da cidade. Queriam registrar a reação das pessoas que passam por esses dois lugares, da afetividade à rejeição, mostrando como duas realidades tão distintas estão separados apenas por uma avenida.
Mas coletivos nada têm de novo. O que diferencia a crescente formação de coletivos são o caráter político e o uso de vídeos e internet para democratizar e divulgar seus trabalhos, diz Mario Ramiro, que na década de 70 integrou o trio 3Nós3, que realizou muitas intervenções em São Paulo, como o Ensacamento: cobriram com sacos de lixo esculturas e monumentos públicos para chamar a atenção de quem passava diariamente pelas ruas e sequer via as estátuas. Em outro momento, vedaram com um X de fita crepe as portas das galerias de arte, com a sugestiva mensagem: O que está dentro fica, o que está fora se expande.
Imagens impermanentes Um guerrilheiro está para arremessar algo, mas, no lugar do coquetel molotov, segura um maço de flores. Um franco-atirador dispara e da metralhadora saem dezenas de pombas brancas. E do rosto da estátua da Liberdade escorre uma lágrima de sangue depois do 11 de Setembro. Algumas imagens de grafites espalhadas pelo mundo fazem uma crítica à violência e à guerra e nos ajudam a enxergar questões urbanas para que não passem despercebidas.
Mas é uma arte quase sempre efêmera. Tem a duração de uma intervenção, ou o tempo de uma pintura ser apagada. Dura o tempo do deslocamento do ritmo cotidiano para um ritmo poético. Mas, mesmo que passageira, tal como os enormes retratos feitos a carvão que com a água da chuva, o vento, e o tempo vão se apagando das paredes até desaparecer, uma intervenção ainda pode durar o tempo que a imagem fique na memória de quem a viu. Breve na mensagem, perene no significado.
A arte urbana depende do espaço público e traz um novo conceito de arte, chamado Site Specific as obras são pensadas para acontecer em determinado ponto, e só funcionam nesse local como as intervenções no rio Pinheiros e no túnel. Outra característica é que o artista costuma preferir o anonimato ao estrelismo. Tanto é que há novas gerações de coletivos de arte, grupos de pessoas que se juntam para fazer trabalhos em conjunto, com mais ênfase na colaboração criativa que no ego.
Como o grupo de artistas plásticos mineiros Poro o nome faz alusão à arte que troca informações com o meio externo. O coletivo faz ações como a da madrugada de 2003, quando se apropriou de canteiros abandonados de uma grande avenida de Belo Horizonte e ali plantou flores de papel. Outro exemplo é o coletivo Object Orange, formado por artistas de Detroit que pintaram prédios abandonados de laranja fosforescente para estimular a prefeitura da cidade a olhar para o problema e tomar atitudes, como demolir e recuperar a área. Ou ainda o caso do coletivo Bijari, em que artistas paulistanos discutem questões ligadas ao espaço público e, em seus trabalhos, criticam o urbanismo excludente. Em uma de suas intervenções em São Paulo, registrada em vídeo, eles soltaram uma galinha no largo da Batata, reduto de cultura popular e ponto de camelôs, e depois colocaram o bicho em frente ao Shopping Iguatemi, lugar freqüentado pela elite da cidade. Queriam registrar a reação das pessoas que passam por esses dois lugares, da afetividade à rejeição, mostrando como duas realidades tão distintas estão separados apenas por uma avenida.
Mas coletivos nada têm de novo. O que diferencia a crescente formação de coletivos são o caráter político e o uso de vídeos e internet para democratizar e divulgar seus trabalhos, diz Mario Ramiro, que na década de 70 integrou o trio 3Nós3, que realizou muitas intervenções em São Paulo, como o Ensacamento: cobriram com sacos de lixo esculturas e monumentos públicos para chamar a atenção de quem passava diariamente pelas ruas e sequer via as estátuas. Em outro momento, vedaram com um X de fita crepe as portas das galerias de arte, com a sugestiva mensagem: O que está dentro fica, o que está fora se expande.
Um guerrilheiro está para arremessar algo, mas, no lugar do coquetel molotov, segura um maço de flores. Um franco-atirador dispara e da metralhadora saem dezenas de pombas brancas. E do rosto da estátua da Liberdade escorre uma lágrima de sangue depois do 11 de Setembro. Algumas imagens de grafites espalhadas pelo mundo fazem uma crítica à violência e à guerra e nos ajudam a enxergar questões urbanas para que não passem despercebidas.
Mas é uma arte quase sempre efêmera. Tem a duração de uma intervenção, ou o tempo de uma pintura ser apagada. Dura o tempo do deslocamento do ritmo cotidiano para um ritmo poético. Mas, mesmo que passageira, tal como os enormes retratos feitos a carvão que com a água da chuva, o vento, e o tempo vão se apagando das paredes até desaparecer, uma intervenção ainda pode durar o tempo que a imagem fique na memória de quem a viu. Breve na mensagem, perene no significado.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Efeitos do Messianismo
Olavo de Carvalho.
Todos os messianismos modernos -- hegelianismo, marxismo, positivismo, nietzscheanismo, teilhardismo, holismo, ecologismo, multiculturalismo, teologia da libertação, progressismo globalista da ONU, etc. -- baseiam-se, em última análise, numa inversão psicótica da percepção do tempo: inventam um futuro hipotético e o tomam como premissa categórica para reinterpretar o passado histórico, abolindo a relação lógica do necessário e do contingente. Quando o futuro chega e a divindade anunciada não aparece, seja ela o Príncipe de Maquiavel, a sociedade sem classes, o Super-Homem ou o reinado de Gaia, começam as “revisões” que modificam o sentido da doutrina originária para transfigurar o vexame em alimento de novas promessas messiânicas, as quais então se sucedem num florescimento inesgotável. Inesgotável como a estupidez humana.
Estou escrevendo um livro a respeito e, no material que coletei para isso, o que mais chama a atenção é a facilidade com que inteligências normais e até superiores, quando arrastadas no turbilhão dos messianismos, se debilitam até à completa inépcia mesmo em raciocínios elementares. Há uma forma especificamente moderna de burrice, que difere da amathia platônica ou da “insensatez” anselmiana. Robert Musil denominava-a propriamente “estupidez” (Dummheit) e a associava ao impulso de fugir do mundo da experiência direta para viver numa “Realidade Segunda” que só existe para o intelectual iluminado, portador do messianismo. Vista de dentro da Realidade Segunda, a estupidez parece sábia. Sua verdadeira natureza só aparece quando a conduta do personagem é confrontada com as exigências do ambiente imediato. Aí a insensibilidade do intelectual iluminado à realidade da vida revela-se de um grotesco exemplar.
Lucien Goldmann, discípulo de Georg Lukács e um dos mais brilhantes intelectuais marxistas dos anos 60, estava certa vez num debate com Eric Voegelin. O autor de Order and History explicava sua tese de que as ideologias revolucionárias modernas são gnosticismos imanentistas, isto é, propostas loucas de que a eternidade vai se materializar, logo adiante, num capítulo da História. Goldmann, indignado, exclamou que o socialismo, para ele, era “uma experiência religiosa perfeitamente autêntica”. O historiador Jacques Madaule, que mediava o debate, desconversou rapidinho, poupando Goldmann de ser apontado como exemplo vivo da tese do adversário.
Mas a estrutura íntima do pensamento marxista, uma vez introjetada, não pode mesmo deixar de jogar a mente mais engenhosa numa sucessão de atos falhos freudianos que denunciarão o seu mau funcionamento de base.
Recentemente, um professor da Faculdade de Direito da USP, Alysson Leandro Mascaro, escrevendo na revista Carta Capital, apontava como raiz dos nossos males o patrimonialismo estatal descrito por Raymundo Faoro em Os Donos do Poder e, no parágrafo seguinte, deduzia daí uma condenação, não às políticas estatizantes e socialistas que a esquerda sempre defendeu, mas... ao liberalismo!
Outro professor de Direito, este da Unicamp, Márcio Bilharino Naves, inspirado no jurista marxista Evguenii Pachukanis (teórico da abolição imediata do Estado após a revolução comunista), dizia achar um absurdo o conceito burguês do “cidadão” universal abstrato, despojado de suas peculiaridades concretas (condição de classe econômica, por exemplo), mas, ao mesmo tempo, denunciava a maldade dos regimes burgueses que restringem o direito de greve às reivindicações econômicas, aprisionando o cidadão na sua identidade de classe profissional e não lhe permitindo fazer greves políticas, isto é, greves de cidadãos universais abstratos...
Do ponto de vista prático a questão é irrelevante, pois, políticas ou não, as greves só existem na sociedade “burguesa”, enquanto no socialismo são punidas com prisão ou morte. Mas, como ilustração do loop lógico messiânico, é altamente didática.
Não se deve acusar esses raciocínios de simples erros de lógica. Seria um desrespeito a seus autores, homens inteligentes. O problema deles não é de raciocínio: é de percepção. Se prestassem atenção ao mundo da experiência vivida, veriam que não é como o imaginam. Mas só o vêem através do espelho profético do mundo futuro, e aí ele fica parecendo uma daquelas telas de Escher em que uma mão se desenha a si própria ou uma escada em caracol termina de volta no primeiro degrau. Quer você chame isso de “dialética”, de “holismo”, de “enfoque sistêmico”, de “desconstrucionismo” ou do que quer que seja, uma coisa é certa: o caso é grave.
Não se trata, é claro, de uma psicose no sentido literal do termo. Alguns dos melhores estudiosos do assunto, como Henri de Lubac, Albert Camus, Norman Cohn e Eric Voegelin, enfatizam o caráter puramente espiritual da enfermidade, que pode se manifestar em almas cujo funcionamento permanece normal fora do horário de expediente acadêmico. Qualquer que seja o diagnóstico, porém, nenhum dos afetados pela doença tem a mínima consciência da sua anomalia, mas todos sentem, por causa dela, um profundo descontentamento com a realidade em que vivem: como esta jamais se comporta da maneira que esperavam, acreditam que o erro é dela e abominam ainda mais o mundo presente e passado, recusando-lhe o direito de existir exceto como prólogo irreal da realidade futura. É um mecanismo de retro-alimentação que agrava formidavelmente a maluquice toda.
***
Ainda a propósito do grotesco, e mais ou menos na mesma linha de considerações, creio já ter citado aqui a observação de Karl Kraus, de que certas épocas não podem ser satirizadas, pois são satíricas em si mesmas e, nelas, a piada é indiscernível da realidade. Pois não é que, poucos meses após o sucesso das “Memórias de um Picareta Ético” do Agamenon Mendes Pedreira, o dr. Luís Eduardo Soares apareceu explicando que o nepotismo, quando praticado em favor de sua esposa, é profundamente ético? E não é que a classe dos cientistas sociais em peso correu para lhe dar razão?
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Em que medida o Fórum Nômade dialoga com os objetivos do Fórum Social Mundial?
extraido de : http://www.recid.org.br/ (aproveitem e visitem este site!)
"A consulta proposta pelo Conselho Internacional do FSM buscava ampliar ou adequar os objetivos de ação para o evento de 2009. Em torno destes objetivos serão organizadas as diversas atividades (conferências, painéis, seminários, oficinas entre outras) no evento de Belém. Veja abaixo a lista de objetivos em torno dos quais serão organizadas as atividades no território do Forum de Belém. Destacadas em negrito estão as adições feitas aos objetivos definidos originalmente para o FSM 2007, realizado em Nairóbi (Quênia).
1. Pela construção de um mundo de paz, justiça, ética e respeito pelas espiritualidades diversas, livre de armas, especialmente as nucleares;
2. Pela libertação do mundo do domínio do capital, das multinacionais, da dominação imperialista patriarcal, colonial e neo-colonial e de sistemas desiguais de comércio, com cancelamento da dívida dos países empobrecidos;
3. Pelo acesso universal e sustentável aos bens comuns da humanidade e da natureza, pela preservação de nosso planeta e seus recursos, especialmente da água, das florestas e fontes renováveis de energia;
4. Pela democratização e descolonização do conhecimento, da cultura e da comunicação, pela criação de um sistema compartilhado de conhecimento e saberes, com o desmantelamento dos Direitos de Propriedade Intelectual;
5. Pela dignidade, diversidade, garantia da igualdade de gênero, raça, etnia, geração, orientação sexual e eliminação de todas as formas de discriminação e castas (discriminação baseada na descendência);
6. Pela garantia (ao longo da vida de todas as pessoas) dos direitos econômicos, sociais, humanos, culturais e ambientais, especialmente os direitos à saúde, educação, habitação, emprego, trabalho digno, comunicação e alimentação (com garantia de segurança e soberania alimentar);
7. Pela construção de uma ordem mundial baseada na soberania, na autodeterminação e nos direitos dos povos, inclusive das minorias e dos migrantes;
8. Pela construção de uma economia centrada em todos os povos, democratizada, emancipatória, sustentável e solidária com comércio ético e justo,;
9. Pela ampliação e construção de estruturas e instituições, políticas e econômicas - locais, nacionais e globais, - realmente democráticas, com a participação da população nas decisões e controle dos assuntos e recursos públicos.
10. Pela defesa da natureza (amazonica e outros ecossitemas) como fonte de vida para o Planeta Terra e aos povos originários do mundo (indígenas, afrodescendentes, tribais, ribeirinhos) que exigem seus territórios, linguas, culturas, identidades, justiça ambiental, espiritualidade e bom viver."
Fórum Social Mundial - e Fórum Nômade
Conforme apresentação do site:
O Fórum Social Mundial se caracteriza também pela pluralidade e pela diversidade, tendo um caráter não confessional, não governamental e não partidário. Ele se propõe a facilitar a articulação, de forma descentralizada e em rede, de entidades e movimentos engajados em ações concretas, do nível local ao internacional, pela construção de um outro mundo, mas não pretende ser uma instância representativa da sociedade civil mundial. O Fórum Social Mundial não é uma entidade nem uma organização. "
Não custa nada a gente imaginar, sonhar, propor, projetar e criar condições de possibilidade de nossa ida à Amazônia!!!!!!
Lindo isso! Façamos o impossível: Fórum Nômade no Fórum Social Mundial!
Visitem a página do Fórum Social: http://www.fsm2009amazonia.org.br/
Penso que devemos correr atrás de patrocínio. Janeiro está ai, temos pouco tempo...mas eu acredito, nós podemos ir...!
QUESTÕES NECESSÁRIAS AOS APONTAMENTOS PARA UMA REINVENÇÃO DO CONCEITO DE ANARQUIA.
1º A anarquia em não desconsidera a vida em sociedade ( a possibilidade da vida diante do outro) quando propõe um auto-governo? e em que ponto nós, humanos, seres passionais não provocaremos um caos?
2º A anarquia considera decisões que favoreçam o coletivo? Se considera, em que ponto eu não abro mão de minhas vontades em favor dos demais? Esse também não é um “contrato social”?
3º Especificamente no caso do Fórum Nômade, nosso elemento anarquista muito profundo não nos faz pensar até que ponto a criação de grupos temáticos, por exemplo não nos proporciona uma consideração pensando no coletivo? Isto não deprecia a idéia de auto-governo?
4º Repensar o conceito de anarquia não perpassa a idéia de não somos anarquistas?
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
DRUMMOND

sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Foucault>>>>>>>>
- Temos aí, seguramente, um estudo muito importante, cuja originalidade é já evidente na maneira em que ele propõe o problema. Do ponto de vista metodológico, a rejeição de Boswell da oposição estabelecida entre homossexual e heterossexual – que desempenha um papel muito importante na maneira como nossa cultura considera a homossexualidade – constitui um progresso, não somente para a ciência, mas também para a crítica cultural. A introdução do conceito de gay (na definição que é dada por Boswell), ao mesmo tempo em que fornece um precioso instrumento de análise, nos auxilia a melhor compreender a imagem que as pessoas têm delas mesmas e de seus comportamentos sexuais. No que concerne aos resultados da pesquisa, esta metodologia permite descobrir que isto que se tem chamado de repressão da homossexualidade não remonta ao cristianismo, propriamente falando, mas a um período mais tardio da era cristã. É importante, neste tipo de análise, perceber as idéias que as pessoas têm de sua sexualidade. O comportamento sexual não é, como muito se costuma supor, a superposição, por um lado de desejos oriundos de instintos naturais e, por outro, de leis permissivas e restritivas que ditam o que se deve e o que não se deve fazer. O comportamento sexual é mais que isso. É também a consciência do que se faz, a maneira que se vê a experiência, o valor que se a atribui. É, neste sentido, creio eu, que o conceito de gay contribui para uma apreciação positiva – mais que puramente negativa – de uma consciência na qual o afeto, o amor, o desejo, as relações sexuais são valorizadas.
- Seu trabalho recente o tem conduzido, se eu não me engano, a estudar a sexualidade na Grécia antiga.
- Exatamente, e este livro de Boswell me serviu de guia, na medida em que me indicou onde procurar o que faria o valor que as pessoas atribuem a seus comportamentos sexuais.
- Essa valorização do contexto cultural e do discurso que as pessoas têm a respeito de suas condutas sexuais é reflexo de uma decisão metodológica de contornar a distinção entre predisposição inata à homossexualidade e condicionamento social? Você tem alguma posição a esse respeito?
- Não tenho estritamente nada a dizer sobre esse ponto. Sem comentários.
- Você acha que não há uma resposta para esta questão? Ou que esta é uma falsa questão? Ou simplesmente ela não o interessa?
- Não, nada disso. Eu simplesmente não creio que seja útil falar de coisas que estão além de minha competência. A questão que você coloca não é de minha alçada, e eu não gosto de falar de coisas que realmente não constituem o objeto do meu trabalho. Sobre esta questão eu tenho somente uma opinião, e por ser uma opinião, é sem interesse.
– Mas as opiniões podem ser interessantes, você não acha?
– É verdade, eu poderia dar minha opinião, mas ela apenas teria sentido na medida em que todos fossem consultados. Eu não quero, sob pretexto de que estou sendo entrevistado, me aproveitar de uma posição de autoridade para fazer comércio de opiniões.
- Está bem. Vamos, então, mudar de assunto. Você pensa que se possa legitimamente falar de consciência de classe no que concerne aos homossexuais? Deve-se encorajar os homossexuais a se considerar como parte de uma classe, da mesma forma que os operários não qualificados ou que os negros em certos países? Quais devem ser, segundo você, os objetivos políticos dos homossexuais, enquanto grupo?
- Em resposta à sua primeira questão, eu diria que a consciência da homossexualidade vai certamente além da experiência individual e compreende o sentimento de pertencimento a um grupo social particular. É um fato incontestável, que remonta a tempos muito antigos. Certamente, essa manifestação da consciência coletiva dos homossexuais vem mudando com o tempo e varia de um lugar para outro. Por exemplo, em diversas ocasiões, ela tomou a forma de um pertencimento a um tipo de sociedade secreta ou de pertencimento a uma raça maldita, ou ainda de pertencimento a uma fração da humanidade que foi ao mesmo tempo privilegiada e perseguida – a consciência coletiva dos homossexuais tem sofrido numerosas transformações, todas, diga-se de passagem, como a consciência coletiva dos operários não qualificados. É verdade que, mais recentemente, alguns homossexuais, segundo o modelo político, têm tentado formar uma certa consciência de classe. Minha impressão é de não se obteve realmente um sucesso, quaisquer que fossem as conseqüências políticas dessa atitude, porque os homossexuais não constituem uma classe social. Isso não quer dizer que não se possa imaginar uma sociedade onde os homossexuais constituam uma classe social. Mas dado nosso modo atual de organização econômico e social, não vejo muitas possibilidades disso se efetuar.
Quanto aos objetivos políticos do movimento homossexual, dois pontos podem ser sublinhados. É preciso, em primeiro lugar, considerar a questão da liberdade de escolha sexual. Eu digo liberdade de escolha sexual e não liberdade de ato sexual, porque certos atos, como o estupro não devem ser permitidos, quer se dêem entre um homem e uma mulher ou entre dois homens. Eu não creio que deveríamos fazer de uma forma de liberdade absoluta, de liberdade total de ação no domínio sexual nosso objetivo. Por outro lado, quando a questão é a escolha sexual, nossa intransigência deve ser total. A liberdade de escolha sexual implica a liberdade de expressão dessa escolha. Por isso, eu entendo a liberdade de manifestar ou de não manifestar essa escolha. No que diz respeito à legislação, é verdade que têm acontecido progressos consideráveis neste assunto, apontando para uma maior tolerância, mas há ainda muito o que fazer.
Em segundo lugar, um movimento homossexual pode adotar como objetivo colocar a questão do lugar que ocupam, para o indivíduo em uma dada sociedade, a escolha sexual, o comportamento sexual e os efeitos das relações sexuais entre as pessoas. Essas questões são fundamentalmente obscuras. Veja, por exemplo, a confusão e equivoco que rodeia a pornografia ou a falta de clareza que caracteriza a questão do estatuto legal definidores da relação entre duas pessoas do mesmo sexo. Eu não quero dizer que a legislação do casamento entre homossexuais deva se constituir em um objetivo, mas nós temos uma série de questões concernentes à inserção e o reconhecimento no interior do quadro legal e social de um certo número de relações entre indivíduos, para os quais devemos encontrar uma resposta.
- Você então considera, se eu bem entendi, que o movimento homossexual não deve somente adotar por objetivo aumentar a liberdade legal, mas devem também colocar questões mais abrangentes e mais profundas sobre o papel estratégico que desempenham as preferências sexuais e sobre a maneira como essas preferências são percebidas. Você pensa que o movimento homossexual não deveria limitar-se somente à liberalização de leis relativas à escolha sexual do indivíduo, mas deveria também incitar ao conjunto da sociedade a repensar seus pressupostos no que diz respeito à sexualidade. O que eu gostaria de dizer, em outros termos, é que os homossexuais não seriam os desviados que é preciso deixar viver em paz, mas é preciso destruir todo o sistema conceitual que classifica os homossexuais entre os desviados. Eis o que coloca interessantemente em jogo a questão dos professores homossexuais. Por exemplo, no debate que se instaurou na Califórnia, acerca do direito dos homossexuais ensinarem em escolas primárias ou secundárias, os que estão contra esse direito se fundamentam não somente sobre a idéia de que os homossexuais possam constituir um perigo para a inocência, na medida em que eles estariam suscetíveis de tentar seduzir seus alunos, mas também sobre o fato de que os homossexuais podem pregar a homossexualidade.
– Toda esta questão, veja, foi mal formulada. Em caso nenhum a escolha sexual de um indivíduo deve determinar a profissão que lhe é permitida ou que lhe é proibida exercer. As práticas sexuais simplesmente não são critérios pertinentes para decidir a capacidade de um indivíduo para exercer uma dada profissão. Claro, você pode me dizer, "mas se essa profissão é utilizada pelos homossexuais para estimular outras pessoas a se tornarem homossexuais?”
Eu lhe responderia isto: você crê que os professores que, durante anos, dezenas de anos, de séculos, explicaram às crianças que a homossexualidade era inadmissível; você crê que os manuais escolares que expurgaram a literatura e falsificado a história, com o objetivo de excluir um certo número de condutas sexuais, não causaram danos pelo menos tão sérios quanto os que se podem imputar a um professor homossexual que fale da homossexualidade e que o defeito é só explicar uma dada realidade, uma experiência vivida?
O fato de que um professor seja homossexual apenas tem efeitos eletrizantes e extremos sobre seus alunos se o resto da sociedade se recusar a admitir a homossexualidade. A priori, um professor homossexual não deve colocar mais problemas do que um professor calvo, um professor homem numa escola de meninas, uma professora mulher em uma escola de meninos ou um professor árabe em uma escola do XVIo distrito de Paris.
Quanto ao problema do professor homossexual que busque ativamente seduzir seus alunos, tudo o que eu posso dizer é que a possibilidade desse problema é presente em todas as situações pedagógicas; encontra-se bem mais exemplos deste tipo de conduta entre os professores heterossexuais – simplesmente porque eles constituem a maior parte dos professores.
– Observa-se uma tendência cada vez mais marcada, nos círculos intelectuais americanos, em particular entre as feministas mais radicais, em distinguir entre a homossexualidade masculina e a feminina. Esta distinção repousa sobre duas coisas. De início, se o termo homossexualidade é empregado para designar não somente uma inclinação pelas relações afetivas com pessoas do mesmo sexo, mas também uma tendência a encontrar, em pessoas do mesmo sexo, uma sedução e uma gratificação eróticas, então é importante sublinhar coisas muito diferentes, no plano físico, em um e outro caso. A outra idéia na qual se funda a distinção é que as lésbicas, em seu conjunto, parecem procurar em outra mulher o que se oferece em uma relação heterossexual estável: apoio, afetividade, compromisso a longo prazo. Se isso não acontece no caso dos homens homossexuais, então se pode dizer que a diferença é chocante, senão fundamental. A distinção lhe parece útil e viável? Quais motivos se podem discernir, que justifiquem essas diferenças que um bom número de feministas radicais influentes destacam com tanta insistência?
– Não posso deixar de cair na risada.
– Minha questão é divertida de uma maneira que me escapa, estúpida ou as duas coisas?
– Ela certamente não é estúpida, mas eu a acho muito divertida, sem dúvida por razões que eu não poderia explicar, mesmo se eu quisesse. Eu diria que a distinção proposta não me parece muito convincente, se eu julgar pelo que observo na atitude das lésbicas. Mas, além disso, é preciso falar das pressões diferentes que se exercem sobre os homens e as mulheres que se declaram homossexuais ou tentam viver como tais. Eu não creio que as feministas radicais de outros países teriam, nestas questões, o ponto de vista que você atribui ao círculo das intelectuais americanas.
– Freud declara na “Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina” que todos os homossexuais são mentirosos[2]. Não seria necessário levar essa afirmação a sério para perguntar se a homossexualidade não comporta uma tendência à dissimulação que teria levado Freud a fazer esta afirmação. Se substituirmos a palavra “mentira” por palavras como “metáfora” ou “expressão indireta” não nos aproximaríamos mais do estilo homossexual? Não há algo de interessante em falar de um estilo ou de uma sensibilidade homossexuais? Richard Sennet, por sua vez, acha que não há estilo homossexual, assim como não há estilo heterossexual. É este também seu ponto de vista?
– Sim, eu não creio que tenha muito sentido em falar de um estilo homossexual. Sob o plano mesmo da natureza, o termo homossexualidade não significa muita coisa. Estou precisamente lendo um livro interessante, lançado há pouco nos Estados Unidos e que se intitula Proust and the Art of Loving (Proust e a arte de amar)[3] O autor mostra a dificuldade de dar um sentido à proposição “Proust era homossexual”. Parece-me que temos aqui, definitivamente, uma categoria inadequada. Inadequada no sentido onde, por um lado, não se pode classificar os comportamentos e, por outro lado o termo não dá conta do tipo de experiência que se tem. Pode-se, a rigor, dizer que há um estilo gay, ou pelo menos, uma tentativa progressiva de recriar um certo estilo de existência, uma forma de existência ou uma arte de viver que se pode chamar “gay”.
Em resposta à sua questão sobre a dissimulação, é verdade que no séc. XIX, por exemplo, era necessário em certa medida, esconder sua homossexualidade. Mas tratar os homossexuais como mentirosos equivale a tratar como mentirosos os resistentes em uma ocupação militar, ou tratar os judeus como agiotas, em uma época onde a profissão de agiota era a única que lhes era permitido exercer.
– Parece evidente, entretanto, pelo menos no plano sociológico que se possa assinalar ao estilo gay certas características, certas generalizações também – apesar de seu riso constante – recordam formas estereotipadas como a promiscuidade, o anonimato entre parceiros sexuais, a existência de relações puramente físicas, etc.
– Sim, mas as coisas não são assim tão simples. Em uma sociedade como a nossa onde a homossexualidade é reprimida – e severamente – os homens gozam de uma liberdade bem maior do que as mulheres. Os homens têm a possibilidade de fazer amor bem mais freqüentemente e em condições notadamente menos restritivas. Criaram-se casas de prostituição para satisfazer suas necessidades sexuais. De maneira irônica, isso teve como efeito uma certa permissividade em torno das práticas sexuais entre os homens. Considera-se que o desejo sexual é mais intenso nos homens, e então têm uma maior necessidade de dar vazão ao seu impulso. Assim, ao lado desses prostíbulos, foram aparecendo banhos onde os homens podiam se encontrar e ter entre eles relações sexuais. Os banhos tinham precisamente essa função. Ele era um lugar onde os heterossexuais se encontravam para o sexo. Penso que esses banhos só foram fechados no séc. XVI, sob o pretexto de que eles eram lugares de uma baixaria sexual inaceitável. Desta maneira, mesmo a homossexualidade se beneficiou de uma certa tolerância em ralação às práticas sexuais enquanto se limitassem a um simples encontro físico. E não somente a homossexualidade se beneficiou com esta situação, mas, através de um contorno singular – comum neste gênero de estratégias –, ela inverteu os critérios de tal maneira que os homossexuais tem podido, em suas relações físicas, gozar de uma liberdade maior que a dos heterossexuais. Em conseqüência, os homossexuais têm hoje a satisfação de saber que em um certo número de países – a Holanda, a Dinamarca, os Estados Unidos e mesmo um país provinciano como a França –, as possibilidades de encontros sexuais são imensas. Deste ponto de vista, a consumação, se poderia dizer, tem aumentado muito. Mas isso não é necessariamente uma condição natural da homossexualidade, um dado biológico.
- O sociólogo americano Philip Rieff, em um ensaio sobre Oscar Wilde intitulado The Impossible Culture (A cultura impossível)[4], vê em Wilde um precursor da cultura moderna. O ensaio começa com uma longa citação dos atos do processo de Oscar Wilde seguida de uma série de questões que o autor levanta quanto à viabilidade de uma cultura isenta de qualquer interdição – de uma cultura que não conhece, então, a necessidade da transgressão. Examinemos, se você quer, o que diz Philip Rieff:
“Uma cultura apenas resiste à ameaça da possibilidade pura contra ela, na medida em que seus membros aprendam por meio de sua vinculação a ela, a restringir as eventuais escolhas oferecidas”.
“À medida que a cultura é interiorizada e se torna caráter, é a individualidade que é reprimida, isso é o que Wilde mais valoriza. Uma cultura em crise favorece o desabrochar da individualidade; uma vez interiorizadas as coisas não pesam tanto para moderar o jogo na superfície da experiência. Pode-se considerar a hipótese segundo a qual, em uma cultura que atingisse a crise máxima, tudo poderia ser expresso e nada seria verdadeiro”.
“Sociologicamente, uma verdade é tudo o que milita contra a capacidade dos homens a expressarem tudo. A repressão é a verdade”.
O que Rieff diz de Wilde e da idéia de cultura encarnada por Wilde parece plausível a você?
– Eu não estou seguro de que compreendo a observação do professor Rieff. O que ele entende, por exemplo, por “a repressão é a verdade”?
– Na realidade, eu creio que esta idéia é muito próxima à que você explica em seus livros quando você diz que a verdade é o produto de um sistema de exclusões, que ela é uma rede, uma épistémè, que define o que pode e o que não pode ser dito.
– A questão importante, me parece, não é de saber se uma cultura isenta de restrições é possível ou mesmo desejável, mas se o sistema de repressões no interior do qual uma sociedade funciona deixa os indivíduos livres para transformar esse sistema. Haverá sempre repressões que serão intoleráveis a certos membros da sociedade. O necrófilo acha intolerável que o acesso aos túmulos lhe seja proibido. Mas um sistema de repressões apenas se torna verdadeiramente intolerável quando os indivíduos que são submissos a esse sistema não têm mais os meios para modificá-lo. Isto pode acontecer quando sistema se torna intangível, seja quando se o considera como um imperativo moral ou religioso ou conseqüência necessária da ciência médica. Se o que Rieff quer dizer é que as restrições devem estar claras e bem definidas, então eu estou de acordo.
– Na realidade, Rieff diria que uma verdadeira cultura é aquela na qual as verdades essenciais foram bem interiorizadas por cada um e não sendo é necessário exprimi-las verbalmente. É claro que, em uma sociedade de direito, seria necessário que o leque de coisas não permitidas fosse explicito, mas as grandes crenças, ficam, em sua maior parte, inacessíveis a uma formulação simples. Uma parte da Reflexão de Rieff é dirigida contra a idéia que é desejável livrar-se de crenças em nome de uma liberdade perfeita e também contra a idéia que as restrições são, por definição, o que devemos nos empenhar em fazer desaparecer.
– Não há dúvida que uma sociedade sem restrições é inconcebível. Mas eu apenas posso repetir, e dizer que essas restrições devem ser suportadas pelos que ao menos têm a possibilidade de as modificar. No que diz respeito às crenças, eu não creio que Rieff e eu estejamos de acordo, nem sobre seu valor, nem sobre seu sentido, nem sobre as técnicas que permitem ensiná-las.
– Você tem, sem dúvida nenhuma, razão sobre este ponto. Podermos deixar agora as esferas do direito e da sociologia para nos voltar ao domínio das letras. Eu gostaria que você comentasse a diferença entre a erótica, tal como se apresenta na literatura heterossexual e o sexo que aparece na literatura homossexual. O discurso sexual, nos grandes romances heterossexuais de nossa cultura – eu percebo o ponto onde a designação “romances heterossexuais” é imprecisa – caracteriza-se por um certo pudor e uma certa discrição que parecem contribuir para o charme dessas obras. Quando os escritores heterossexuais falam do sexo em termos muito explícitos, parecem perder um pouco desse poder misteriosamente evocador, dessa força que se encontra em um romance como Anna Karenina. É ai que, de fato, George Steiner desenvolve com muita coerência um bom número de seus ensaios. Contrastante com a prática de grandes romancistas heterossexuais, nós temos o exemplo de diversos escritores homossexuais. Penso, por exemplo, em Cocteau que em seu Livre blanc[5], bem sucedido em preservar o encantamento poético que os escritores heterossexuais alcançam por meio de alusões veladas, descrevendo os atos sexuais em termos mais realistas. Você pensa que existe uma tal diferença entre esses dois tipos de literatura? E se sim, como você a justifica?
– É uma questão muito interessante. Como eu havia dito antes, eu tenho lido, nestes últimos anos, um grande número de textos latinos e gregos que descrevem as práticas sexuais tanto de homens entre eles, quanto de homens com mulheres; eu fiquei surpreso com o extremo pudor desses textos (há, claro, algumas exceções). Tomemos um autor como Luciano. Temos aí um escritor antigo, que certamente fala da homossexualidade, mas de uma maneira quase pudica. No fim de um de seus diálogos, por exemplo, ele evoca uma cena onde um homem se aproxima de um jovem rapaz, coloca a mão sobre seu joelho, depois a desliza por sobre sua túnica e acaricia seu peito; a mão desce em seguida para o ventre do jovem homem, e neste ponto, o texto se detém[6]. Tendo a atribuir esse pudor excessivo, que em geral, caracteriza a literatura homossexual da Antiguidade, ao fato de que os homens gozassem, naquela época, em suas práticas homossexuais, de uma liberdade bem maior.
– Eu compreendo. Em suma, quanto mais as práticas sexuais são livre e francas, mais se permite falar de maneira reticente e indiretas sobre elas. Isso explicaria por que a literatura homossexual é mais explicita em nossa cultura que a literatura heterossexual. Porém, eu me perguntaria hoje se há, nesta explicação, algo que poderia justificar o fato de que a literatura homossexual consiga criar na imaginação do leitor, os efeitos que cria a literatura heterossexual ao utilizar mais precisamente os meios opostos.
– Eu poderia tentar responder sua questão, se você me permite, de outra forma. A heterossexualidade, pelo menos desde a Idade Média tem sido sempre percebida segundo dois eixos: o eixo da corte, onde o homem seduz a mulher e o eixo do ato sexual mesmo. A maior parte da literatura heterossexual do Ocidente é essencialmente preocupada com o eixo da corte amorosa, quer dizer, com tudo o que precede o ato sexual. Toda a obra de refinamento intelectual e cultural, toda a elaboração estética no Ocidente tem se voltado sempre para a corte. Isso explica que o ato sexual mesmo seja relativamente pouco apreciado, do ponto de vista literário, cultural e estético.
Por outro lado, não há nada que ligue a moderna experiência homossexual à corte. Além do mais, as coisas não se passam assim na Grécia antiga. Para os gregos, a corte entre os homens era mais importante do que a corte entre homens e mulheres (que se pense ao menos em Sócrates e Alcibíades). Mas a cultura cristã ocidental baniu a homossexualidade, a forçando a concentrar toda a sua energia no ato mesmo. Os homossexuais não podem elaborar um sistema de corte porque se lhe tem recusado a expressão cultural necessária para esta elaboração. A piscada na rua, a decisão, em uma fração de segundo, de aproveitar a aventura, a rapidez com a qual as relações homossexuais são consumadas, tudo isso é o produto de uma interdição. A partir do momento em que uma cultura e uma literatura homossexuais se iniciasse, seria natural que elas se concentrassem sobre o aspecto mais ardente e passional das relações homossexuais.
– Lembro, ao te ouvir, da célebre fórmula de Casanova: “O melhor momento, no amor, é quando se sobe as escadas”. Seria doloroso imaginar hoje essas palavras na boca de um homossexual.
– Exatamente. Um homossexual diria antes: “O melhor momento, no amor, é quando o amante se distancia no táxi”.
– Eu não posso deixar de pensar que está ai uma descrição mais ou menos precisa das relações entre Swann e Odette no primeiro volume de La Recherche[7].
– Sim, é verdade em um sentido. Porém, embora se trate de uma relação entre um homem e uma mulher, seria necessário, na descrição, ter em conta a natureza da imaginação que a concebe.
– E seria preciso também ter em consideração a natureza patológica da relação tal como Proust mesmo a concebe.
– Eu gostaria mesmo de deixar de lado, neste contexto, a questão da patologia. Eu prefiro mais simplesmente me ater à observação pela qual eu abri esta parte de nossa conversa, a saber que, para um homossexual, é provável que o melhor momento do amor é aquele onde o amante se distancia no táxi. É quando o ato está consumado e o rapaz parte, que se começa a sonhar com o calor de seu corpo, a beleza de seu sorriso, o tom de sua voz. É a lembrança, e não a antecipação do ato que importa mais nas relações homossexuais. É a razão pela qual os grandes escritores homossexuais de nossa cultura (Cocteau, Genet, Burroughs) podem descrever com tanta elegância o ato sexual: a imaginação homossexual se liga, principalmente, à lembrança do que à antecipação deste ato. E como eu disse antes, tudo isso é o produto de considerações práticas, de coisas bem concretas, que nada dizem da natureza intrínseca da homossexualidade.
– Você pensa que isso tenha alguma influência sobre a pretensa proliferação das perversões de hoje? Faço alusão a fenômenos como a cena sadomasoquista, os golden showers, as diversões escatológicas e outras coisas do mesmo gênero. Sabemos que estas práticas existem há muito tempo; mas parece que se as vive hoje de uma maneira muito mais aberta.
– Eu diria também que bem mais pessoas entregam-se a elas.
– Você pensa que este fenômeno e o fato de que a homossexualidade saia do armário, tornando pública sua forma de expressão são, de alguma forma, ligados?
– Eu arriscaria a seguinte hipótese: em uma civilização que, durante séculos, considerou-se que a essência da relação entre duas pessoas residiria no fato, de saber se uma das duas partes cederia ou não à outra, todo o interesse, toda a curiosidade, toda a audácia e a manipulação que provaram as partes em questão, sempre visaram a submissão do parceiro com a finalidade de deitar-se com ele. Hoje, quando os encontros sexuais têm se tornado extremamente fáceis e numerosos, como é o caso dos encontros homossexuais, as complicações acontecem apenas depois do ato. Nestes encontros repentinos, depois de ter feito amor, que se começa a inquirir o outro. Uma vez consumado o ato sexual, pergunta-se, então ao parceiro: “Qual é mesmo seu nome?”
Estamos na presença de uma situação em que toda a energia e a imaginação, antes canalizadas para a corte em uma relação heterossexual, se aplicam, ai, para intensificar o ato sexual. Desenvolve-se hoje toda uma nova arte da prática sexual, que tenta explorar as diversas possibilidades internas do comportamento sexual. Vemos se constituir em cidades como São Francisco e Nova Iorque, o que se pode chamar de laboratórios de experimentação sexual. Pode-se ver, em contrapartida à corte medieval, que definia regras muito estritas de propriedade no ritual da corte.
É porque o ato sexual tornou-se tão fácil e tão acessível aos homossexuais que corre o risco de tornar-se rapidamente tedioso; por isso se faz tudo o que é possível para inovar e introduzir variações que intensifiquem o prazer do ato.
– Sim, mas por que essas inovações têm tomado esta forma e não outra? De onde vem a fascinação pelas funções excretoras, por exemplo?
– Eu acho mais surpreendente o caso do sadomasoquismo. Mais surpreendente, na medida onde as relações sexuais se elaboram e se exploram através de relações míticas. O sadomasoquismo não é uma relação entre este (ou esta) que sofre e este (ou esta) que inflige o sofrimento, mas entre um senhor e a pessoa sobre a qual se exerce sua autoridade. O que interessa aos adeptos do sadomasoquismo é o fato de que a relação é ao mesmo tempo submissa às regras e aberta. Ela lembra um jogo de xadrez, onde um pode ganhar e o outro perder. O senhor pode perder, no jogo sadomasoquista, se ele se revela incapaz de satisfazer a necessidade e exigências de sofrimento de sua vítima. Da mesma forma, o escravo pode perder se ele não consegue tolerar ou não suporta o desafio lançado pelo senhor. Essa mistura de regras e de abertura tem por efeito intensificar as relações sexuais, introduzindo uma novidade, uma tensão e uma incerteza perpétuas, que é isenta na simples consumação do ato. O objetivo é usar qualquer parte do corpo como um instrumento sexual.
De fato, a prática do sadomasoquismo é ligada à expressão célebre “animal triste post coitum”. Como o coito é imediato nas relações homossexuais, o problema se torna: “O que se pode fazer para se proteger do caminho da tristeza?”
– Você veria uma explicação para o fato dos homens parecerem hoje menos dispostos a aceitar a bissexualidade das mulheres do que de outros homens?
– Isso tem, sem dúvida, a ver com o papel que as mulheres desempenham na imaginação dos homens heterossexuais. Eles as consideram, desde sempre, como sua propriedade exclusiva. Para preservar essa imagem, um homem deve impedir sua mulher de estar muito em contato com outros homens; as mulheres se viam, assim, restritas a seu contato social com as outras mulheres, o que explica que uma tolerância maior no que diz respeito às relações físicas entre as mulheres. Por outro lado, os homens heterossexuais tinha a impressão que se eles praticassem a homossexualidade, isso destruiria essa imagem que eles têm de si, junto às mulheres. Os homens pensam que as mulheres apenas experimentam prazer na condição que elas os reconheçam como senhores. Mesmo para os gregos, o fato de ser o parceiro passivo em uma relação amorosa constituía um problema. Para um membro da nobreza grega, fazer amor com um escravo passivo era natural, porque o escravo era, por natureza, inferior. Mas quando dois gregos da mesma classe social queriam fazer amor, isso colocava um verdadeiro problema pois nenhum dos dois consentia em se reduzir diante do outro.
Os homossexuais ainda hoje conhecem este problema. A maioria deles consideram que a passividade é, de uma certa forma, degradante. A prática do sadomasoquismo contribuiu, de fato, para tornar o problema menos agudo.
– Você pensa que as formas culturais que se desenvolvem na comunidade gay são, em grande medida, destinadas aos jovens membros dessas comunidades?
– Sim, em muitos casos, penso eu; mas eu não estou seguro que se possa tirar conclusões importantes daí. Certamente, é enquanto homem de cinqüenta anos que tenho a impressão que, quando leio certas publicações são feitas para e por gays, que elas não se endereçam a mim, que não há, de uma certa maneira, lugar para mim. Eu não me fundamentaria nestes fatos para criticar essas publicações, já que elas satisfazem os interesses de seus autores e de seus leitores. Mas eu não posso me impedir de observar que há uma tendência, entre os gays cultos, a considerar os grandes problemas, as grandes questões de estilo de vida interessam prioritariamente às pessoas que tem entre vinte e trinta anos.
– Eu não vejo por que isso não poderia constituir a base não somente de uma crítica de certas publicações específicas, mas também da vida gay em geral.
– Eu não disse que ai não se poderia encontrar matéria para crítica, mas somente que esta critica não me pareceria útil.
– Por que não considerar, neste contexto, o culto voltado ao jovem corpo masculino como o núcleo mesmo dos fantasmas homossexuais clássicos e falar da maneira que esse culto aciona a negação de processos vitais comuns, em particular o envelhecimento e o declínio do desejo?
– Escute, essas questões que você levanta não são novas e você o sabe. No que diz respeito ao culto voltado ao jovem corpo masculino, eu não estou totalmente convencido que isso seja específico dos homossexuais, ou que isso tenha que ser considerado como patológico. Se é isso que sua questão exprime, eu a recuso. Mas lembro a você que, além do fato de que os gays sejam necessariamente tributários de um processo vital, eles são também, na maioria dos casos, bem conscientes disso. As publicações gays talvez não consagrem tanto o lugar que eu desejaria às questões de amizade entre homossexuais ou à significação das relações de ausência de códigos ou de linhas de condutas estabelecidas; porém cada vez mais gays têm resolvido essas questões por si mesmos. E, como você sabe, eu acredito que o que embaraça mais quem não é homossexual é o estilo de vida gay e não os atos sexuais em si.
– Você faz alusão a coisas como os sinais de afeto e as carícias que os homossexuais se fazem em público ou antes à maneira chamativa que eles se vestem, ou ainda, ao fato de que eles arvoram as reuniões formais?
– Todas essas coisas apenas podem ter um efeito perturbador sobre certas pessoas. Porem, eu fazia alusão, sobretudo, ao temor comum de que os gays estabeleçam relações que, ainda que elas não se conformem em nada ao modelo de relações exaltado pelos outros, aparecendo, apesar de tudo, como intensas e satisfatórias. É esta idéia de que os homossexuais possam criar relações que não possamos ainda prever, que muitas pessoas não podem suportar.
– Você faz alusão, então, às relações que não impliquem nem a possessividade nem a fidelidade – para apenas mencionar dois fatores comuns que poderiam ser negados?
– Se não podemos prever o que serão essas relações, não podemos verdadeiramente dizer que esse ou aquele traço será negado. Porém, podemos ver no exército, por exemplo, como o amor entre homens pode nascer e se afirmar em circunstâncias onde somente o puro hábito e a regra são permitidos prevalecer. E é possível que mudanças afetem, em maiores proporções, as rotinas estabelecidas, na medida em que os homossexuais aprendam a exprimir seus sentimentos em relação uns aos outros das maneiras mais variáveis e criarem estilos de vida que não se assemelhem aos modelos institucionais.
– Você considera que seu papel seja de endereçar à comunidade gay particularmente as questões de importância geral, como as que você levantou?
– Eu tenho, habitualmente, conversas com outros membros da comunidade gay. Nós discutimos, tentamos encontrar maneiras de nos abrir uns aos outros. Porém eu me vigio para não impor minhas próprias visões, para não fixar planos ou programas. Eu não quero desencorajar a invenção, não quero que os homossexuais cessem de crer que são eles que devem regular suas próprias relações, descobrir o que serve para suas situações individuais.
– Você não pensa que haveria conselhos particulares ou uma perspectiva específica que um historiador ou um arqueólogo da cultura como você pudesse oferecer?
– É sempre útil compreender o caráter historicamente contingente das coisas, de ver como e porque as coisas se tornam o que elas são. Mas eu não sou o único que é equipado para mostrar essas coisas e quero me guardar da suposição de que certos desenvolvimentos foram necessários ou inevitáveis. Minha contribuição pode ser, eventualmente, ser útil em certos domínios, mas, ainda uma vez, eu quero evitar de impor meu sistema ou meu plano.
– Você pensa que, de uma maneira geral, os intelectuais são, em relação aos diferentes modos de comportamento sexual, mais tolerantes ou mais receptivos que as outras pessoas? Caso positivo, isso se deveria a uma melhor compreensão da sexualidade humana? Caso negativo, você pensa que você e outros intelectuais possam fazer alguma coisa para melhorar essa situação? Qual é o melhor meio de reorientar o discurso racional sobre o sexo?
– Eu penso que em matéria de tolerância, nós sustentamos numerosas ilusões. Tome o incesto, por exemplo. O incesto tem sido, durante muito tempo, uma prática popular – entendo por isso uma prática muito difundida entre o povo. Até o fim do séc. XIX, diversas pressões sociais começaram a se exercer contra o incesto. É claro que a grande interdição ao incesto é uma invenção dos intelectuais.
– Você quer dizer figuras como Freud e Lévi-Strauss ou pensa na classe intelectual em seu conjunto?
– Não, eu não viso uma pessoa em particular. Eu chamo sua atenção sobre o fato de que, se você pesquisa na literatura do séc. XIX estudos sociológicos ou antropológicos sobre o incesto, você não vai encontrar. Existe antes, aqui e ali, algumas relações médicas e outras, mas parece que a prática do incesto não tem um verdadeiro lugar de problema, na época.
Sem dúvida, esses assuntos são abordados mais abertamente entre os melhores intelectuais, mas isso não é sinal de uma tolerância maior. Isso, as vezes, indica o contrário. Há dez ou quinze anos, quando eu freqüentava o meio burguês, eu me lembro que era raro uma reunião sem que se abordasse a questão da homossexualidade e da pederastia – afinal, não se esperava mesmo a sobremesa. Mas essas mesmas pessoas que abordavam abertamente essas questões provavelmente não admitiriam jamais a pederastia de seus filhos.
Quanto a prescrever a orientação que devem tomar um discurso racional sobre o sexo, eu prefiro não legislar sobre esse assunto; por uma razão: a expressão “discurso intelectual sobre o sexo” é muito vaga. Certos sociólogos, sexólogos, psiquiatras, médicos e moralistas têm propostas muito estúpidas – assim como outros membros dessas mesmas profissões têm propostas inteligentes. A questão, em minha opinião, não é sobre um discurso intelectual sobre o sexo, mas de um discurso estúpido e de um discurso inteligente.
– Eu compreendi que o senhor descobriu, a pouco tempo, um certo numero de obras que progridem em uma boa direção.
– É verdade, mais do que eu podia imaginar há alguns anos. Mas no conjunto, a situação é menos que encorajadora.
[1] Boswell (J.), Christianity, Social Tolerance and Homosexuality: Gay People in Western Europe from the Beginning of the Christian Era to the Fourteenth Century. Chicago: The University of Chicago Press, 1980.
[2] Alusão à frase de Freud: "Eu lhe expliquei um dia que eu não devia confiar nesses sonhos, pois eles são mentirosos". Em "Sur la psychogenèse d'un cas d'homosexualité féminine", 1920, Névrose, Psychose Perversion. P.U.F., 1973, p.264.
[3] RIVERS (J. C.). Proust and the Art of Loving: The Aesthetics of Sexuality in the Life, Times and Art of Marcel Proust. New York: Columbia University Press, 1980.
[4] Rieff, P. “The Impossible Culture”, Salmagundi, nos 58-59: Homosexuality: Sacrilege, Vision, Politics, autonome 1982-hiver pp. 406-426.
[5] Cocteau, J. Le Livre blanc. Paris: Sachs et Bonjean, 1928.
[6] Lucien. Dialogues des courtisanes. (trad. E. Talbot). Paris: Jean-Claud Lettès, 1979.
[7] Proust, M. À la recherche du temps perdu. t. I: Du cote chez Swann, 2e partie: une amour de Swann. Paris: Ed. De la Nouvelle Revue française, 1929.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
sábado, 30 de agosto de 2008
SOU NOMÂDE!!!

OCUPANDO OS TERRITÓRIOSRubens Pileggi
...Superado o problema da arte-objeto, o protagonista da experiência estética passa a ser o ambiente, enquanto espaço em que os indivíduos ou grupos sociais se inserem e vivem...
... muitos artistas, ..., procuram ambientes que demandam uma interpretação, um esforço aplicativo, uma vontade de estabelecer relações.
GIULIO CARLO ARGAN, A Arte moderna, pags. 587 a 590
Tópicos em desenvolvimento:
1. Território é espaço. Espaço é matéria. Logo, a colocação da matéria no espaço cria limites territoriais. Cria intervenções. E ela não pode ser desvinculada de seu conteúdo ideológico.
2. Lugar é espaço ocupado. O lugar cria sentido à idéia de espaço. Definições como dentro e fora são apenas convenções que tanto podem facilitar uma compreensão prática de localização, quanto servir de ideologia, para justificar segregações.
3. Arte pública não é obra pública. A presença de objeto, escultura e a idéia de monumento vinculadas ao estatuto de obra de arte, criando arte de encomenda para inaugurar edifícios e obras públicas, não condizem com o caráter crítico, que é próprio deste tipo de manifestações.

5. O pensamento formal deve acompanhar a linguagem, e aqui, ele não se resolve a priori. Eis algumas questões orientadoras:
A. Monumentos precários – Retomada da idéia do grafite dos anos 80, que ficou parado na técnica do spray. Precariedade formal e material. Não há mais necessidade de obra de arte como algo durável;
B. Monumental mínimo – É a partir do que a obra propõe que se coloca a relação de entendimento do espaço. Portanto, o ponto de vista da discussão é a partir do trabalho acontecendo no espaço, sua contextualização. Uma pequena intervenção em local específico pode ser mais eficiente do que uma enorme peça que não diz nada para ninguém, que fala só para si própria;

D. Xamanismo - Abolição da fronteira entre o eu e o mundo. Conectando o mundo dos excluídos (fumadores de crack, mendigos, sem-tetos) ao mundo dos socialmente incluídos, através de rituais simbólicos, como por exemplo o são as lavagens de escadarias de igrejas, jogar copos de água limpa no rio Tietê, etc.;
E. Ação política – Uma arte fundamentada em atitudes. Formas novas exigem novos modos de operação com a realidade. Não há como evitar o confronto;
F. Vínculos -– Cultura como manifestação artística também fora dos circuitos de galerias e museus; cultura como capacitadora de inclusões e incorporações de contrastes; cultura como processo de contaminação;
G. Memória – Uma das definições de monumento segundo o Dicionário Aurélio;
H. O pensamento como matéria - As fronteiras diluídas entre os campos de conhecimento, ou seja, aonde começa a ciência e termina a filosofia? Qual a fronteira entre a arte e a religião?
I. Diluição da noção de autoria. A idéia de autoria é recente e seu caráter não condiz com novos modos de produção como os operados hoje, seja na música, com o hip hop, ou na internet, onde cada um adiciona o que quiser à informação, ou mesmo nas questões sociais comunitárias, diante das exigências de mercados globais, como associações, cooperativas, etc.. A idéia de participação e a possibilidade de interferência no processo da criação artística, faz com que a interação se torne a chave do trabalho.
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